Até Dilma ficaria feliz em ter João Jorge na Cultura

Fernando Conceição

Dilma Rousseff, em sua última visita de candidata à Bahia, foi quem afirmou. Depois de sair da presidência da República vai tentar encontrar uma vaga para entrar no bloco afro Olodum. Que se tornou o que foi e é pela inteligência de João Jorge Santos Rodrigues, hoje com mestrado em Direito pela Universidade de Brasília (UnB).

Não sei em que planeta vive o meu esforçado colega da UFBA Albino Rubim, ainda titular que joga para se manter à frente da Secretaria de Cultura do Estado (Secult). Inclusive com declarações deselegantes, que soam como chantagem a Rui Costa, na entrevista à jornalista Maria Garcia. Clique para ler e tire suas conclusões.

À repórter Rubim disse coisas assemelhadas a um toma-lá, dá-cá. Eis: “O resultado eleitoral aponta a `correção´ dessa política [de territorialização nas ações da Secult]  e nós estivemos muito dentro disso.” Rubim, de ampla folha de serviços prestados ao PT, espera ser recompensado, mantendo-se no posto, pelo esforço de cabo eleitoral que desempenhou como titular da pasta.

Deveria romper imediatamente com a era Rubim, iniciada a partir da entronação de Marcio Meirelles na pasta (2007-2010). Disso paulatinamente decorreu o aparelhamento da Secult pelo stalinismo pseudoacadêmico. Travestido de teorias gramscistas, com a prole de estagiários do bacharelado de “produção cultural” da Facom (Faculdade de Comunicação da UFBA). Na qual, um dia, o secretário reinou absoluto. Não reina mais, o que de forma alguma significa que as coisas ali melhoraram. Ele soube transferir o seu talento e poder de influência para outra estrutura próxima.

Cultura é coisa séria para ficar por tanto tempo na mão de acadêmicos culturais… É prioritário pôr de lado os estafetas da cultura baiana e convocar para a linha de frente quem não apenas pensa mas faz cultura no cotidiano. Nada contra os amantes de conferências disso e daquilo, mas é preciso secundarizar os intermediários e copydesk de teses que mofam em estantes, como bem frisa Aninha Franco.

Que tal nomear para a Secult pessoa entranhada na ebulição cultural – ocorrida a partir dos anos 1970 – do Estado? Dizer entranhada é pouco. João Jorge Rodrigues, como intelectual orgânico de todo um movimento sociopolítico que sacudiu as estruturas do modus faciendi cultural na Bahia, foi um dos protagonistas daquela revolução.

Ainda que se possa encontrar equívocos nalgumas de suas posições, não está sozinho nesse particular. Tampouco jamais foi o mais equivocado – entendam isso como quiser, até como autocrítica.

Mesmo filiado ao PSB, cuja candidata Marina Silva (negra) viu-se vilipendiada pelo PT, foi uma das lideranças de um setor do Movimento Negro brasileiro que dissidiu do seu partido para publicamente declarar voto a Dilma Rousseff, que sambou sob os tambores no Pelourinho.

Já no início de 2007 escrevi artigo publicado no jornal A Tarde no qual reivindicava a ascendência de João Jorge sobre o secretário Marcio Meirelles. Vez que foi aquele quem resgatou este do ostracismo em que jazia depois de sua melancólica gestão no Teatro Castro Alves (1987), dando-lhe um lugar no Olodum que, por fim, o catapultou a outros holofotes.

Nada há no que aqui se afirma como resultante de conveniências. João Jorge e este que vos escreve não privamos nem mesa nem intimidades. Próximos, sim; amigos-amigos, nunca fomos.

Se na imprensa brasileira e em meios acadêmicos há alguém que argumentou criticamente, desde lá atrás, ao ter início a reforma do Centro Histórico de Salvador, sobre o papel desempenhado pela liderança do Olodum (ou do Ilê Aiyê, ou dos Filhos de Gandhy…) e sua submissão não explicitada a interesses do show business em sacrifício do combate radical ao poder racista na Bahia, posso me credenciar como aquele alguém.

Se o que a Bahia vende lá fora, como capital simbólico, é o seu diferencial, o caldeirão de matrizes culturais marcadamente afrodescendentes, por que não entregar a pasta da Cultura a um intelectual como João Jorge? Ele pode rejeitar, por ter planos mais ambiciosos.

É possível quantificar, medir, qualificar e sentir a miséria cultural andando pelas ruas e becos da cidade. Pelo Pelourinho, como testemunho nas várias ocasiões em que aí estou desde alhures, com antigos e novos moradores, guardadores de carro, quituteiras, usuários de crack, voluntários que trabalham com esses usuários, donas de boutiques, travestis e prostitutas.

Perambular nessas esquinas em noites comuns, não em efemérides festivas, é se expor. Coisa a que gente da estirpe de Rubim, que provém de outra esfera, não corre o risco. Apesar de muito saber falar e alguma coisa escrever sobre. Daí o nonsense de suas respostas a Maria Garcia, sobre as justas críticas ao abandono a que se vê relegado o Centro Histórico.

Depois dos maneirismos dos gestores oficiais da cultura da Bahia na última década, gasta-se mais do escasso dinheiro orçamentado e sempre contingenciado da pasta com propaganda, oficinas, seminários e máquina de editais, que com quaisquer outras finalidades propulsoras de ebulição fora da ordem.

Tais gestores, que mal sabem escrever uma linha inteligível, que entendem de arte como eu de fitoplasmas, com seus maneirismos e trejeitos parecem ter uma intencionalidade. Nutrem alguma vocação sádica e paternalista contra a liberdade de criação artística. Sob o pífio argumento de querer – como é mesmo que dizem? – mais democracia. Por favor, me bata um abacate!

O artigo original e completo está no  Fernando Conceição: Literatura, Jornalismo, Bier e Poeira


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