Luiza Bairros: Uma flor de Lótus

Carla Akotirene

As mulheres negras latinoamericanas e afrocaribenhas lamentaram, no dia 12 deste mês, a perda da sua árvore enraizada de africanidade feminista. Luiza Bairros, Flor de Lótus, seguiu para perto das divindades ialodês.

Sua trajetória política ancorou-se na luta pelo enfrentamento ao racismo estruturado na sociedade brasileira – contra os expedientes segregacionistas do Estado – pelo fim do machismo inobservado por parte dos companheiros de militância antirracista – pela promoção de políticas de igualdade racial.

Representatividade negra buscou denunciar ás práticas debilitantes das feministas brancas que, rotineiramente, chamavam às mulheres negras, para trabalhar nas suas casas, por exemplo,

cuidar de seus filhos, mas, na contramão de tal parceira contra a ordem patriarcal, nunca se aliaram frente ao extermínio dos filhos das suas babás e trabalhadoras domésticas. Tampouco se importavam com as condutas sinhás presentes nos congressos políticos e espaços universitários.

Luiza Helena de Bairros, seguindo passos de Lélia Gonzalez, denunciou o machismo dos homens negros expresso na recorrente anulação politica e destituição do protagonismo das mulheres negras, o qual categoricamente mencionou no artigo “A mulher negra e o feminismo”.

Bairros alertou em vida da necessidade de as mulheres negras se reunirem em separado. Com fins de fortalecimento desta coletividade, ainda hoje, tratada como terceira classe pelos homens negros e pelas mulheres brancas. Certamente visou fortalecer movimentos de mulheres e, igualmente, chamar os homens algozes, às águas do atlântico, para o quanto de semelhança sofrida deságuam dos nossos olhos.

Por esta razão, bebendo do legado deixado por Luiza Bairros, a atriz, pesquisadora de Performance Negra, Danielle Anatólio, construiu na arte e cultura negra, o “Flor de Lótus”, com base no contexto afetivo de diversas mulheres negras, além de pesquisa feita no livro Mulher Negra:Afetividade e Solidão, de Ana Cláudia Lemos Pacheco.

Sua proposta artística se valeu das poesias de escritoras negras, como Lívia Natália, Mel Adún e Cristiane Sobral.
Trata-se de uma vontade de mergulhar nas águas do sangue ancestral. Engolir o choro no momento em que o HIV chega pelo amor vindo do marido. A depressão na hora em que este mesmo homem descobre não ser a mulher negra quem ele pediu a Deus.

Flor de Lótus é uma pétala de nós. É a atenção à realidade de sermos majoritariamente as chefas de famílias, logo, as mais pauperizadas.

Às que aguentam sozinhas o imaginário social associado à brutalidade, a lascívia, a doença, a sexualidade grotesca, ao servilismo, a onda segurada sozinha sem deixar água cair dos olhos.

Flor de Lótus é Luiza! É mulher que marcha em nome da comunidade negra, também, chamando os irmãos a marcharem em nome das reivindicações políticas como legalização do aborto e combate aos feminicidios.

Flor de Lótus é Luiza! E tudo que as mulheres haverão de ser.
Flor de Lótus é Dantesca e “Isto não é uma mulata”! São as nossas performances..
Que as mulheres negras consigam levar para rodas de capoeira os seus gingados políticos.
Que as mulheres negras sejam ouvidoras, contadoras de nossas histórias.
Que as mulheres negras sejam todas doutoras!
Que sejam as nossas advogadas.
Que sejam as nossas vozes cantando, escrevendo, batucando, puxando o candomblé.
Que lacrem, tombem e vivam de forma odara.
Que as mulheres negras gritem: Parem de nos Matar!
Que as mulheres negras amem e sejam amadas.
Que não levem flores para enterrar mais mortos.Que dêem as mãos e os corações para outras mulheres.
Que as mulheres negras não sejam especialistas em esconder angústias.
Que as mulheres negras sejam donas das suas casas.
Que jamais se esqueçam da Flor de Lótus.
Jamais se esqueçam de Luiza Bairros.

Doutoranda em estudos de gênero, mulheres e feminismo, pela Universidade Federal da Bahia

Publicado em Jornal A Tarde e Geledes

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