Mãe Stella é a mais nova imortal da Academia de Letras

Mãe Stella entra para a Academia de Letras

Mãe Stella entra para a Academia de Letras

Sakvador (Brazil) – Motivo de orgulho para a Bahia e para o Brasil, Mãe Stella de Oxóssi, 88 anos, é a primeira mulher negra a se tornar uma imortal da Academia de Letras da Bahia (ALB) . Há 74 anos iniciada no candomblé, completados no dia de sua posse, na quinta-feira (12/09), Stella de Azevedo dos Santos também é a primeira ialorixá empossada em uma academia de letras no Brasil. Agora ela passa a ocupar a cadeira 33, cujo patrono é o poeta abolicionista Castro Alves. O último a ocupar o assento foi o historiador baiano Ubiratan Castro.

Com dificuldade para enxergar, Mãe Stella entregou ao poeta José Carlos Capinam a missão de ler seu discurso.

Seu discurso leve, no entanto profundo e dedicado, comoveu o variado público e foi acompanhado pela leitura de poemas de Castro Alves, entre eles um dos mais fortes, Navio Negreiro. “Não sou uma literata ‘de cathedra’, não conheço com profundidade as nuanças da língua portuguesa. O que conheço da nobre língua vem dos estudos escolares do hábito prazeroso de ler. Sou uma literata por necessidade. Tenho uma mente formada pela língua portuguesa e pela língua yorubá. Sou bisneta do povo lusitano e e do povo africano. Não me canso de repetir: o que não se registra o tempo leva. É por isso e para isso que escrevo. Compromisso continua sendo a palavra de ordem”.

Emocionado, Capinam comparou a tarefa de ler o discurso da ialorixá a uma obrigação do candomblé. Em alguns momentos, chegou a parar para recuperar o fôlego. Enquanto isso, não faltaram saudações a Oxóssi (Óké Aró) e aplausos à ialorixá, que é formada em enfermagem, doutora honoris causa da Uneb e articulista do Jornal A Tarde.

“Muitas pessoas,  no passado e no presente, lutaram para que hoje eu pudesse, de maneira natural, fazer parte desta Academia. Uma delas foi o patrono da cadeira onde me firmo. Antônio Frederico de Castro Alves entoou gritos poéticos na tentativa de despertar a sociedade brasileira para a mais cruel de todas as atitudes humana: a privação de liberdade”. escreveu a imortal da Academia de Letras da Bahia.

O salão onde ocorreu a cerimônia ficou pequeno para a grande quantidade de pessoas que prestigiaram a posse de Mãe Stella, cuja trajetória de vida é marcada pela defesa da liberdade, combate aos preconceitos, fortalecimento da cultura africana e guia espiritual para pessoas de todo o mundo.  Entre os presentes estiveram o governador Jaques Wagner, o prefeito ACM Neto, o secretário de Promoção da Igualdade Racial, Elias Sampaio, a ministra Luiza Bairros, da Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial da Presidência da República (SEPPIR-PR),  o secretário de cultura Albino Rubim, além dos povos de vários  terreiros de candomblé da Bahia.

Mãe Stella pontuou em seu discurso que ter uma cadeira em uma academia de letras significa fortalecer a preservação dos terreiros de candomblé através da escrita e da cultura oral.  “É considerado imortal todo aquele que fez ou faz de sua vida uma obra a ser lida, a ser internalizada. É objetivo da Academia de Letras da Bahia manter viva, na memória de todos, a contribuição que ilustres homens e mulheres deram no sentido de colaborar para o aperfeiçoamento da sociedade e da humanidade”.

Para a ministra Luiza Bairros, a posse de Mãe Stella é um marco na história da literatura brasileira. “Mãe Stella mais uma vez está marcando seus múltiplos caminhos. É a primeira mãe-de-santo a assumir uma cadeira. Uma mulher negra, de luta, de palavra e compromissada com o povo baiano, que sempre esteve de braços abertos para ajudar e aconselhar quem a procurasse”, comentou Bairros.  O secretário Elias Sampaio considera a posse da ialorixá uma vitória também para o povo negro. “É a primeira guia espiritual, símbolo de bondade, de respeito ao próximo, de combate ao racismo”, destacou.

A antropóloga Goli Guerreiro lembrou que a posse de Mãe Stella modifica uma estrutura há anos permanente em várias academias de letras do País, geralmente acostumadas a empossar e tornar imortais pessoas com formação vasta formação acadêmica. “Demorou muito, inclusive, esse dia, para uma terra como a Bahia. Muitas academias tem uma estrutura discriminatória quando acreditam que só pode tomar posse uma pessoa erudita e intelectual. A Bahia, mais uma vez, saiu na frente na quebra de paradigmas”, pontuou.

A cerimônia – como não podia deixar de ser – foi finalizada com o cântico em homenagem a Oxóssi, o seu orixá. “Olówo mo npe mi o iye iye/ Ode mo PE mi olùbó ai pé/ Mo npe mi o iye iye/ Ode mo PE mi olùbó ai pé/ Mo npe ni na sé ni dé na”.   Óké Aró!. Fonte: Sepromi

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